RIBON, Michel. A arte e a natureza. Campinas: Papirus, 1991, p. 95-7.
Esse texto é um trecho do livro de Ribon para reflexão.
Pode-se falar da fealdade de uma obra de arte? É abusivamente qualificada de feia uma obra - como aquela de Caravaggio cujas Virgens e apóstolos tinham ar de gente do povo - que vai de encontro aos nossos hábitos consagrados pela tradição clássica da beleza ideal. O julgamento de feio só é legítimo quando consideramos que o artista não conseguiu dar existência plena à obra que projetara; tal como o fracasso, o feio, na arte, é a forma abortada de um projeto que não chegou a fazer nascer um mundo.
Ambígua, a atitude do homem em face da natureza é muitas vezes, desde a pré-história, um misto de atração e repulsa: a questão do feio natural não pode ser aqui esquecida.
Ao contrário da maioria dos valores negativos - o erro, o fracasso, o pecado, a injustiça, a doença -, o feio e sua condição foram com freqüência mantidos, assim como a velhice e a morte, numa zona de obscuridade. “O feio, dizia Plotino, é estranho à alma”: relegado ao domínio do “Totalmente Outro” ou do “Imundo”, como se não pudesse ser corrigido, ele amedronta, repele, é um contramodelo; as deformidades de um corpo e a amedrontadora selvageria de uma paisagem testemunhariam o monstruoso impudor da natureza. Se a experiência do feio é acompanhada de ressentimento e ódio contra a deformidade prolífica, se se alimenta de pulsões sádicas, é que o feio é sentido como a ameaça de uma matéria rebelde e uma contaminação; ameaça à qual o sujeito é tentado a responder com uma contra-agressão, pela morte. Mas a negação da arte possui essa maldade?
O antinaturalismo do século XIX esforça-se para dar ao feio natural uma condição não desprovida de ambiguidade: a denúncia do feio tem como avesso, sobretudo quando se trata a Mulher, uma espécie de celebração sacral. “A mulher é natural, ou seja, abominável”: assim Baudelaire coloca a tripla identidade da natureza, da mulher e do feio; a fobia da matéria e a fobia da mulher reúnem-se no medo da mácula e do pastoso “em que a Forma se distancia, apaga-se e se dissolve”; Degas passa uma hora a observar mulheres no banho e conclui que “em geral, a mulher é feia”.
Arauto do dandismo, O . Wilde, que confessa amar entre as flores apenas aquelas que lhe parecem artificiais, escreveu que “a vida é o inimigo e a subversão da arte: ser natural é ser anti-artístico”. Mesmo a saúde, por sua plenitude de vida, é suspeita de trivialidade em Th.Mann, e o herói d’A montanha mágica refugia-se no conforto da doença que a proteção de um sanatório lhe oferece.
Descritos por Sartre n’A náusea, o mofo, o inchaço e a obscenidade das coisas, de repente descolados de seus nomes, perdem qualquer forma determinada e resistem à nossa influência, do fundo de sua gratuidade. Mas, nomeando o Inominável, para melhor denunciá-lo, o escritor, fazendo-o assim entrar em seu mundo, por isso não reabilita o feio?
O livro é bem interessante e vale a leitura total da obra.
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