segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

MEDICINA POPULAR


MEDICINA POPULAR

ARRUDA, Maria Lúcia de Melo. Medicina Popular - a arte de curar dos raizeiros. Cuiabá, UFMT-Imprensa Universitária, 1983. 74 p.
[Texto extraído da obra acima citada (usei muito como apoio em minhas aulas)].

Hipócrates representa o marco inicial da história da medicina. Nasceu na ilha de Cós (Grécia) no ano de 460 a .C.. Antes dele, a prática médica não possuía uma doutrina coerente que a estruturasse, nem uma base científica. (...) Criou um método científico que abarcou a Semiologia, o Prognóstico e a Terapêutica. Tal método é o reflexo de sua experiência baseada no raciocínio, fugindo às hipóteses estabelecidas de antemão para combater o erro e buscar a verdade.

(...) Hipócrates libertou a medicina das influências sacerdotais e filosóficas (...) Antes dele, a prática médica era imbuída de magias e superstições, apoiada quase só no capricho dos deuses. A obra hipocrática representa uma súbita ruptura entre as concepções nebulosas que associavam a doença a forças insondáveis e a medicina baseada na observação e no rigor que atribui as perturbações a causas naturais. 

Os portadores de folclore, suas plantas, receitas e rezas

Cuiabá [pode-se entender também Campo Grande e as cidades de MT e MS], sendo um centro social urbano de médio porte e tendo intenso movimento migratório, conta ainda com pessoas que transmitem, de geração a outra, os ensinamentos que receberam de seus pais e avós, de diversas origens e estados, que favorecem a dinâmica cultural.

Este conhecimento, transmitido oralmente e por imitação, faz parte da vida cotidiana de pessoas simples, sem instrução regulamentar (isso é questionável, é uma postura conservadora) e constitui o folclore...

A medicina popular é largamente empregada nas cidades (desses estados e de outros como Amazonas, Pará, Pernambuco, Paraíba..), nas quais existem diversos raizeiros. Este termo se aplica a quem coleta a planta, seca, prepara os remédios, diagnostica, receita e vende a planta para a decocção ou chá, o emplastro e vende a garrafada, o remédio já preparado por infusão, com composição de plantas. O termo raizeiro também se aplica a quem faz as mesmas funções descritas menos a de coletar a planta, pois já a compra de pessoas que simplesmente as comercializam e que ficam sempre encobertas; nunca se pode conhece-las porque o medo da concorrência entre os raizeiros é grande devido às plantas de difícil acesso e muita procura. Os clientes são de todas as camadas sociais, mas a maioria é de classe baixa e média, que os procura por razões de herança cultural, por razões financeiras e por medo dos médicos.

A herança cultural é explicada de maneira simples: “porque sempre nos tratamos assim”; as razões financeiras estão claramente explicadas: “porque o médico cobra caro e os remédios de farmácia custam uma fortuna”; e o medo dos médicos se deve à baixa compreensão pela falta de estudo associada à dificuldade financeira que os impede de comprar muitos remédios e de voltar ao médico para novas consultas.

A medicina popular é de grande importância nesta região amazônica [e também pantaneira], onde a flora existe em abundância e os médicos em escassez (com exceção das capitais). São as plantas que curam os caboclos, os índios e todos aqueles que com eles se relacionam intensificando a dinâmica cultural. Os raizeiros têm uma tradição cultural a manter e a missão de curar que se tornou seu ofício, sua profissão.

Alguns exemplos de plantas medicinais:
Planta: Mangabeira (Apocynum hancornia, Lineu. Fam. Das Apolináceas)
Indicação: fígado, fechar ferida, tosse (usa-se o leite da planta)

Planta:Caco de balaio (sem identificação)
Indicação: tosse (usa-se a raiz)

Planta: Rabo-de-macaco (Costus spicatus, Swartz. Fam. Das Zikngiberáceas)
Indicação: Rim  (usa-se a rama)

Planta: Vassourinha (Sida rhombifolia, Lineu. Fam.das Malváceas)
Indicação:  Rim – machucadura (usam-se folha, caule e raiz)

Planta: Pé-de-boi ou Pé-de-vaca (s/identificação)
Indicação: Rim, reumatismo (usam-se raiz batida, folha)

Planta: Cancerosa (Maytenus ilicifolia, Martius. Fam. Das Celastráceas
Indicação: moléstia de sangue (usa-se a folha sem a serra)

Planta: Cânfora (Laurus camphora, Lineu. Fam.das Lauráceas)
Indicação: fígado (usa-se a folha)

Planta: Pé-de-anta (s/identificação)
Indicação: Reumatismo, dores, coração (usa-se a folha)
(...)

A benzeção Sr. Antonio aprendeu com suas tias, avós, mãe e diz que o quebrante, o mau-olhado, se pega pela língua, olhou, falou, já pegou e tem que benzer, então reza o Creio em Deus Pai e Santa Catarina. (...)

Os remédios preparados com as plantas medicinais geralmente utilizam as suas partes que contêm o princípio ativo, as folhas, flores, frutos, sementes, caules, cascas ou raízes. A medicina popular tem dado grande contribuição à medicina científica como é o caso da utilização do alho no combate ao enfarte como se vê atualmente e o valor das ervas e sua sabedoria é reconhecido e anunciado em jornais e revistas.

Os raizeiros utilizam as plantas no combate à doença sem terem recebido nenhum ensinamento oficial, o que sabem lhes foi transmitido oralmente por seus pais e avós, que assim também faziam. Por imitação repetem os atos ensinados e assim transmitem para seus filhos, veiculando uma tradição oral da medicina popular que constitui um setor de folclore. A sabedoria dos raizeiros é fruto de sua observação em relação ao natural, sem nenhum conhecimento científico; utilizam a parte da planta que tem o princípio ativo, a droga, e que faz o efeito de acordo com o uso prolongado da mesma. A medicina popular é uma ciência popular de quem, sem estudo, se aprimorou na arte de curar e que, envolta de poderes mágicos, denota sua importância em regiões onde os médicos são raros e o acesso a eles muito difícil.

Em antropologia, falando de Lévi-Strauss, podemos dizer que os raizeiros, a medicina popular, se inscreviam, dentro da dicotomia cru X cozido, no conceito de cru enquanto natural e a ciência médica se inscrevia no conceito de cozido, a ciência elaborada com os remédios sintetizados em laboratório e com seus componentes identificados fazendo parte da cultura erudita.





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