FOLCLORE E EDUCAÇÃO
CARVALHO NETO, Paulo de. Folclore e educação. Rio de Janeiro: Forense Universitária: Salamandra, 1981.
Este texto que selecionei é parte integrante do livro Folclore e Educação do Dr. Paulo de Carvalho Neto, respeitado teórico da área.
“Assim como ao educador lhe corresponde perseguir e aniquilar os fatos folclóricos inaproveitáveis, também lhe corresponde proteger e restaurar os aproveitáveis. Uma vez mais, lembremos que o folclorista não tem, não deve ter e não pode ter esta preocupação. Pois sabe que o Folclore e as instituições mudam e que os critérios de aproveitável e inaproveitável, positivo ou negativo, não são critérios científicos. O folclorista enquanto tal só tem por meta a Ciência do Folclore. E ao lamentar o desaparecimento dos fatos folclóricos só o faz porque esse desaparecimento acarreta maiores dificuldades para o estudo das origens e da interpretação, e não porque os estudantes perdem suas raízes ou porque a nacionalidade se vê prejudicada ou isto ou aquilo.
Quais são os processos de proteção e restauração? As simulações do “Folclore” através das projeções? Projeção é aproveitamento do Folclore, já sabemos disso, mas será também um processo de proteção e restauração? Não, é evidente que não. O aproveitamento não é feito para o proveito do Folclore, mas sim do aproveitador e dos consumidores que tem em vista. O Folclore é como a árvore do látex na Amazônia: extrai-se-lhe o leite para fazer a borracha, mas isto vai matando a planta. De tempos em tempos é necessário deixar a árvore em paz, agora sim, cuida-la, preserva-la. É um grave erro confundir aproveitamento com proteção.
O mestre que ensina Folclore na escola está enriquecendo o aluno, mas não está fazendo nada em proveito do Folclore propriamente dito. O Folclore é como a água do poço: o educador vai ao poço, tira a água e a traz em recipientes classificados para servir à Educação. Até que um dia o poço seca. Secando o poço morreu esse Folclore. A água engarrafada que o mestre trouxe já não é exatamente aquela água do poço, em quantidade e qualidade. Para começar, trata-se de uma água engarrafada.
O aluno não foi ao poço para beber. Trata-se de um translado. O Folclore Aproveitado é um translado folclórico, não é Folclore. As sociedades tradicionalistas ou nativistas não preservam o fato tradicional, preservam o tradicionalismo dentro de cada pessoa, o quê diferente. Uma preservação nitidamente classista, porque na maioria dos casos estão formadas sobre a base da divisão de classes sociais, onde pobre e negro não entram. É uma gente dedicada e sincera em seu amor pelo Folclore, mas fechada em círculo. Encarregam-se de difundir o Folclore? Não precisamente. Mas sim de difundir o amor pelo Folclore.
É evidente que este ponto de vista é discutível. [...] O que discuto é a presunção da burguesia em achar que participa do processo da criação folclórica com a mesma categoria que o povo propriamente dito, aqui compreendido como a massa que não vive do capital.
Diria, portanto, que o aproveitamento só concorre para a proteção – quando ocorre – por via de retorno, isto é, indireta. Os meios de comunicação de massa, que em nossos países estão em poder das classes dirigente, só se põem a serviço do povo, verdadeiramente, quando o convida a difundir as suas expressões. E isso é raro. O comum é estes meios de comunicação de massa sejam usados pelas próprias classes dirigentes difundindo projeções. Estará assim “salvando” o Folclore, isto é, protegendo-o e restaurando-o? Ou apenas contribuindo para uma relativa difusão do mesmo?
Entre estes dois pontos de vista – o aproveitamento não é proteção em absoluto [...] Como então proteger e restaurar a verdadeira tradição? Criando programas de ajuda e assistência às comunidades portadoras natas do fato, o que exige critérios de ação, métodos claros, sumo cuidado. Pois é muito fácil, em nome da proteção e restauração, acarretar involuntariamente o desaparecimento pela deformação. E o turismo mal interpretado tende a isso. [...]”
Para a proteção e restauração do folclore, Édison Carneiro propõe e Paulo de Carvalho explicita:
“Restaurar por diversos processos:
1. O chamado – na imprensa; 2. O apoio - de empresas; 3. O apoio oficial – criando oportunidades de apresentações; 4. A pesquisa – o volume de estudos auxilia na compreensão; 5. Respeito à liberdade – com a legítima expressão do povo.
Como dissemos uma e outra vez, a teoria e prática do aproveitamento ou da perseguição é tarefa muito delicada, porque há vários fatores que pesam na determinação do que é aproveitável ou do que não o é. A Educação é uma matéria discriminadora por excelência, profundamente influenciada pelos conceitos filosóficos da época. Ela muda na medida em que mudam esses conceitos. Ela conduz à libertação do Homem pelo conhecimento das causas, mas ao mesmo tempo à sua escravidão pela obediência às normas. É uma disciplina subserviente, à serviço do Estado em primeiro lugar. Só se liberta das amarras no peito e na raça, através das figuras imortais dos mestres afoitos, considerados idealistas. Ela é um instrumento da ordem estabelecida. Não é sem razão que os professores recebem salários miseráveis, precisamente para mantê-los sob a política do cabresto. [...]
Na classificação dos fatos aproveitáveis e inaproveitáveis, portanto, influem as idéias filosóficas da época e do lugar, a estabelecerem o que é “ético” e o que é “estético”. Idéias filosóficas estas que são manejadas pela classe dominante, tornando-se, portanto, uma expressão classista. [...]”
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