terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

EX-VOTOS




Pagadores de promessas

José Marques de Melo


O ex-voto é uma manifestação cultural enraizada na tradição greco-romana. Configura um “acerto de contas” de natureza mística.
Ao perder as esperanças na solução terrena de  problemas do cotidiano, geralmente as pessoas recorrem diretamente  às divindades. Pedido feito, elas aguardam a solução. Se o resultado satisfaz, o pedinte cumpre  o prometido. Ninguém quer figurar na lista dos inadimplentes.

Daí, as demonstrações coletivas realizadas pelos pagadores de promessas, como bem espelhou Dias Gomes em sua dramaturgia multimidiática
Apesar de amplamente difundidos no Brasil, os ex-votos nunca mereceram tratamento sistemático por parte da vanguarda eclesiológica.  Como diriam os profetas afro-descendentes: aquela que “faz a cabeça”  do nosso episcopado.  E por tabela configura a “ideologia” que regula a conduta da intelectualidade brasileira.

O mais antigo registro desse fenômeno, na cartografia folkcomunicacional brasileira, foi feito pelo arquiteto Luis Saia (1944), que ousou identificar como obras de arte esculturas oriundas das “salas dos milagres”.
Depois disso, o silêncio em torno da questão foi quebrado, mas não interrompido. Luiz Beltrão publicou em 1965 seu histórico artigo – O ex-voto como veículo jornalístico -, suscitando controvérsia  nacional.

Enquadrado pelos teólogos politicamente corretos na categoria dos exegetas das crendices populares,  o patrono da Folkcomunicação foi excluído a priori da ágora reservada  aos militantes da pedagogia dos oprimidos.
Enquadrado como extensionista, populista ou  desenvolvimentista, Beltrão foi automaticamente recusado  na legião dos bem-aventurados que os purificadores do catolicismo latino-americano idealizaram como sua marca registrada.   Mesmo assim, a corrente beltraniana manteve-se fiel às circunstâncias que determinam a opção dos marginalizados  pela construção do reino aqui e agora.

Desta maneira, temos assistido o descompasso que se estabeleceu entre as práticas de comunicação horizontal nutridas pela religiosidade popular e as expectativas de purificação vertical do catolicismo latino-americano.
É nesse  cipoal cognitivo,  repleto de simulações discursivas  e dissimulações retóricas,  que Luis Erlin Gomes  Gordo finca os “pés  na terra” para elucidar as circunstâncias determinantes da supressão do espaço que a centenária revista Ave Maria dedicou aos ex-votos no período 1898-1970.

Narrativa clara, bem documentada, comovente e edificante,  o livro Ex-votos, saga de uma comunicação perseguida (São Paulo, Ave-Maria, 2015) prende a atenção do leitor, da primeira à última página. Qualquer tentativa de explicação complementar pareceria supérflua, pretensiosa, desnecessária.

Com elegância, Luis Erlin  eclipsou as impertinências que constrangem os leitores das periferias acadêmicas. O lançamento deste livro será o ponto culmiknante do II Encontro Internacional de Folkcomunicação (São Paulo, Centro Cultural da INTERCOM, 19h, dia 28/Março/2015).


Rede de Estudos e Pesquisa em Folkcomunicação - Rede Folkcom
http://www.redefolkcom.org.br













segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

HUMBERTO ECO - ENTREVISTA AO LE MONDE


Umberto Eco rememora a vida sob o fascismo

Italiano lança o romance "A Misteriosa Chama da Rainha Loana"



Por Catherine Bédarida

Em Paris (foi publicado em 19/03/2005

Um professor na Universidade de Bolonha, na Itália, especialista em semiótica, Umberto Eco começou a escrever romances na idade de 48 anos. O primeiro, "O Nome da Rosa" (editado pela primeira vez em 1980), conheceu um enorme sucesso internacional. Depois, vieram "O Pêndulo de Foucault" [cuja trama aborda o sincretismo religioso e cultural do Brasil], "A Ilha do Dia Anterior" e "Baudolino".

Agora, o escritor publica "A Misteriosa Chama da Rainha Loana", um romance ilustrado, que é também uma reflexão sobre as imagens da infância.

A seguir, leia os principais trechos da entrevista que Umberto Eco concedeu ao Le Monde, na qual ele também explica o sucesso de romances que abordam o universo místico, como "O Código da Vinci" e "O Alquimista".

Le Monde - O sr. já disse em várias oportunidades que cada um dos seus romances constitui um novo experimento. Desta vez, o sr. insere uma grande quantidade de imagens que fazem parte da narrativa. Por quê?

Umberto Eco - Neste livro, eu retorno ao meu passado e ao da minha geração, que cresceu durante o regime fascista. Esta memória baseia-se em imagens, em músicas, em objetos, e não apenas em palavras.

Para constituir a matéria-prima do meu texto, eu reuni uma documentação sobre os anos 1930-40. Eu já possuía na minha casa uma importante coleção de livros, de capas de discos, de caixas... Eu a completei pesquisando em lojas de bricabraque e em sebos, procurando os objetos que faltavam para o meu projeto. Na Internet, eu consegui reconstituir toda a minha coleção de selos.

Os livros sempre foram ilustrados, exceto em nossa época. No século 19, autores tais como Jules Verne intervinham, eles mesmos, na pesquisa das imagens que ilustrariam os seus livros. Seria possível temer, atualmente, que a ilustração substitua a linguagem e a sua potência.

Mas eu tomei cuidado para que as imagens nunca tomem o lugar de uma descrição verbal. Elas servem para evidenciar uma prova, para mostrar que eu não estou exagerando quando descrevo a propaganda fascista, por exemplo.

Elas têm também uma "função de etc.": eu mostro a capa de um livro antigo, e a memória dos leitores, imediatamente estimulada por esta referência, entra em expansão.

Le Monde - Qual foi o impacto da literatura de juventude, com o seu universo maravilhoso, sobre a formação do imaginário desta geração?

Umberto Eco - Ao organizar a matéria-prima do livro, eu redescobri a situação esquizofrênica na qual a Itália se encontrava na época. De um lado, aturava-se a educação oficial da ditadura -eu reencontrei essas canções e esses livros que falam da glória, do heroísmo.

De outro lado, existe esta dupla influência cotidiana, por intermédio do rádio e da música em voga, que celebram um mundo provincial e pequeno-burguês, e por intermédio do cinema, que, com as histórias em quadrinhos e os romances policiais, chega da América. 

Essas histórias, banais nos Estados Unidos, adquiriam no nosso país uma dimensão política e ideológica. Mandrake, o herói de histórias em quadrinhos, trajava um fraque e não utilizava armas. Isso nada tinha a ver com o herói fascista carregando uma metralhadora a tiracolo que nos era proposto como ideal.

Neste ambiente militarista, os personagens de álbuns que trajavam terno e chapéu-coco, capazes de resolver os problemas mais complicados com um gesto elegante, já constituíam uma provocação.

Le Monde - O seu romance se desenrola no século 20. O sr. sentiu a necessidade de retornar à história recente? 

Umberto Eco - Eu tinha acima de tudo a necessidade de contar a minha infância. A Itália nunca se cansou, desde o final da guerra, de reconstituir o seu passado, de fazer o seu exame de consciência, diferentemente da França.

Atualmente, em função da presença de antigos fascistas no governo, estamos assistindo a um revisionismo que procura reinterpretar o passado fascista a partir de um outro ponto de vista: alguns andaram insistindo nos crimes que foram cometidos pelos guerrilheiros antifascistas, os quais já haviam sido apurados e divulgados pelos historiadores.

Eu tento estabelecer relações entre a grande história e a pequena história. Na vida de uma criança, estas duas coisas são completamente conectadas: assim como a sopa e a carne, elas são servidas juntas à mesa.

Não existe nenhuma hierarquia entre os artigos de jornais, as histórias em quadrinhos e as canções populares de época. Esta oscilação está no cerne do livro.

Le Monde - As diferentes formas de esoterismo costumam aparecer com frequência nos seus livros, nos quais elas são manejadas com erudição e humor. Nos últimos anos, foram publicados best-sellers tais como o "Código Da Vinci", de Dan Brown, ou "O Alquimista", de Paulo Coelho. Qual avaliação o sr. faz destes livros?

Umberto Eco - Em "O Pêndulo de Foucault" (1987), eu havia inserido um bom número de ingredientes esotéricos, que podem ser encontrados no "Código Da Vinci". Os meus personagens, ao elaborarem os seus projetos, levam em conta a importância do Graal, por exemplo.

Eu quis fazer uma representação grotesca daquilo que eu via em volta de mim, de uma tendência da qual eu previa o crescimento. Era fácil fazer uma profecia como esta. Ao pesquisar para escrever "O Pêndulo de Foucault", eu esvaziei todas as livrarias que já se especializavam nessa "gororoba cultural"! Dan Brown copia livros que podiam ser encontrados trinta anos atrás nos sebos da Rua da Huchette em Paris.

O sucesso pode ser explicado pelo fato de que os autores desses best-sellers levam tudo isso a sério, e ainda pelo fato de que as pessoas são sedentas por mistérios. Em "O Pêndulo de Foucault", eu cito a frase de G. K. Chesterton: "Quando os homens não acreditam mais em Deus, isso não se deve ao fato de eles não acreditarem em mais nada, e sim ao fato de eles acreditarem em tudo".

Eu sempre tive um grande fascínio pelos ritos sincréticos brasileiros. 

Eu aposto que eles não vão demorar a penetrar na Europa. Até mesmo a Igreja Católica está começando a demonstrar certa simpatia por todas essas realidades "new age". Ela acreditava que ela precisaria combater o comunismo ou o materialismo, mas ela descobre agora que precisa enfrentar o crescimento desta necessidade de mistério, de complô, de sobrenatural.

Ao escrever "O Pêndulo de Foucault", eu achava estar acertando as contas com este fenômeno. Ao contrário, eu lhe dei apoio, oferecendo, possivelmente, matéria para inspiração que beneficiou outros autores.

Le Monde - Quais eram os sinais que lhe permitiram detectar a existência desta necessidade? 

Umberto Eco - Bastava entrar numa livraria. Durante os anos 70, os setores dedicados ao marxismo e aos pensamentos revolucionários começaram a ceder lugar para departamentos dedicados ao orientalismo, aos novos cultos, à "new age".

A psicologia do complô dominou os séculos 19 e 20, até o anti-semitismo nazista. A metade dos grandes dignitários nazistas era ligada a confrarias ocultistas. Existem vínculos que vão e voltam ao longo da história dos dois últimos séculos, que eu tentei descrever e explicar, simplesmente porque eu estava fascinado pelo fenômeno.

Eu coleciono os livros antigos. Eu venho acumulando todo esse material ocultista e tudo isso me fascina. Mas é possível ter uma paixão pela vida das rãs sem querer se tornar por sua vez uma rã! Eu coleciono livros que não dizem a verdade --contos, fábulas, mistérios-- e, ao mesmo tempo, eu sei que eles não dizem a verdade. Eu não acredito nem nas fadas, nem nos mágicos.

A idéia segundo a qual tudo já está acertado por meio de um complô secreto tem lá o seu charme, evidentemente. Ela liberta as pessoas do sentimento de culpa pessoal, uma vez que é alguém, na sombra, que está agindo. Ela liberta as pessoas da responsabilidade frente aos males do mundo.

Le Monde - O personagem do seu novo romance dedica toda a sua energia ao objetivo de recuperar a sua lucidez. Em várias oportunidades, o sr. já apelou os intelectuais italianos a exercerem a sua lucidez e as suas responsabilidades. O sr. foi ouvido?

Umberto Eco - A vigilância dos intelectuais não diminuiu. Todo dia, ocorrem intervenções contra o regime de Silvio Berlusconi. Contudo, por mais que eles denunciem os conflitos de interesses, as leis feitas sob medida, as modificações da Constituição, a metade do país, aquela que vota nele, não está nem aí!

Ela pouco se incomoda com o fato de ver o homem o mais rico da Itália concentrar todos os poderes em suas mãos. Ser dono dos meios de comunicação permite assentar um poder soporífico.

Le Monde - O sr. abordou com freqüência a questão da imigração e da tolerância. Será que os valores de hospitalidade ainda têm algum espaço na Europa tal como ela está sendo construída?

Umberto Eco - Dentro de trinta anos, haverá uma mestiçagem muito profunda. A Europa será um continente colorido e ela não poderá se fechar dentro de si mesma. Esta evolução, portadora de instabilidade, provocará sem dúvida reações sangrentas.

As migrações das populações do norte no Império Romano provocaram massacres. Mas a mestiçagem completou-se; se isso não tivesse acontecido, a França, a Itália, a Alemanha não existiriam. 

Quais serão as formas desta mestiçagem? A Europa encontrará as suas próprias formas. Ou então, poderá ser o modelo americano --uma coexistência mais ou menos pacífica das comunidades, mantidas juntas por uma película americana superficial, constituída por uma ideologia do bem-estar, do respeito pelo individualismo. De qualquer forma, será preciso haver uma estratégia do diálogo.

Le Monde - Por exemplo? 

Umberto Eco - O debate francês em torno do véu muçulmano na escola é uma estratégia. A decisão francesa apresenta o risco de produzir ainda mais divisões. Se essas garotas fossem admitidas tranquilamente nas escolas, algumas delas conservariam o seu véu, enquanto outras o tirariam. A situação talvez pudesse se tornar mais maleável, em vez de ficar mais tensa.

Le Monde - Quais são os seus projetos? 

Umberto Eco - Eu tenho um ou dois livros de ensaios para terminar. E preciso de tempo antes de retomar um eventual projeto de romance. Mas talvez eu venha a morrer amanhã. Ou, quem sabe, posso decidir, eu também, levar todas essas histórias ocultas muito a sério e escrever o meu próprio "Código Da Vinci"... 

Tradução: Jean-Yves de Neufville 
Visite o site do Le Monde

TRADIÇÃO DA PÁSCOA


Páscoa é uma tradição cristã com origens pagãs
Ricardo Soca 
MONTEVIDÉU/MAR/2005

A Páscoa, a festa mais importante do cristianismo, celebra a ressurreição de Jesus Cristo e sua ascensão aos céus no terceiro dia, após a crucificação, mas sua origem é muito anterior ao próprio cristianismo.

Poucos sabem que, por trás da alegre celebração, marcada por almoços familiares e o costume dos coelhos e dos ovos de Páscoa, se escondem tradições milenares, cujas raízes remontam à pré-história.

De fato, tanto a ressurreição de Jesus Cristo quanto a festa pascal têm laços com antigas crenças e ritos pagãos que celebravam a chegada da primavera (no hemisfério norte) como uma volta da vida, uma ressurreição depois da noite invernal.

Com o cristianismo, a celebração em torno da tragédia litúrgica da morte e a ressurreição de Cristo, os povos europeus desenvolveram ao longo dos séculos crenças e cerimônias que derivam de antiquíssimos ritos pagãos relacionados com o tema da fertilidade e com a ideia da ressurreição.

A Páscoa cristã corresponde à "Pessaj" judaica, a celebração da travessia do Egito, quando um anjo enviado por Deus ordenou aos israelitas que pintassem a porta de suas casas com sangue de cordeiro para que os exterminadores enviados pelo faraó para matar os primogênitos evitassem entrar nestas casas.

Este foi o sinal para que os judeus fugissem da escravidão no Egito e, liderados por Moisés, iniciassem o Êxodo rumo à terra prometida 34 séculos atrás.

A Páscoa é, portanto, uma das palavras do nosso cotidiano com origem na antiguidade. A "Pessaj" dos judeus, que significa "passar ao largo" ou "saltear", chegou ao grego como "paska", através do cruzamento com o latim "pascuum" (local de pastagem, em alusão ao fim do jejum). A palavra grega foi assimilado pelo latim como "pascha", que no latim vulgar ibérico se tornou "páscoa".

Os gregos celebravam a cada primavera a volta de Perséfone, filha de Zeus e da deusa da Terra, Deméter, que retornava à superfície das profundidades do inferno, como símbolo da ressurreição da vida que ocorre a cada ano.

Os frígios (povo que habitava a região da Turquia atual no século X a.C.), por sua vez, organizavam festas de primavera com dança e música para despertar o seu deus que, segundo acreditavam, adormecia durante o inverno.

A festa judaico-cristã também tem vínculos com cultos germânicos muito arcaicos. O nome Páscoa em inglês ("Easter") e alemão ("Ostern") vem da deusa germânica do Sol (Austron, cuja festa principal se celebra na primavera), que na Grã-Bretanha tinha o nome de Eostre.

A festa pascal não tem data fixa porque se baseia não só nos ciclos do Sol, mas também no antigo calendário lunar.

Desde o Concílio de Nicéia, convocado por Constantino no ano 325 da nossa era, a Páscoa é celebrada no domingo seguinte à primeira lua cheia posterior ao equinócio da primavera, que ocorre por volta de 21 de março e marca o início da primavera no hemisfério norte(grifo meu)

Entre as tradições pascais mais arraigadas resta o costume dos ovos, símbolo da fertilidade em culturas européias pré-cristãs. Antigamente proibidos durante a Quaresma, apareceram na celebração da Páscoa durante os últimos séculos - frequentemente pintados ou decorados e, mais recentemente, de chocolate - como símbolos da nova vida e da ressurreição.

A lebre, que no Egito era um símbolo tanto de fertilidade quanto de periodicidade dos ciclos lunares e humanos, também esteve vinculada desde muito cedo com a Páscoa. Na moderna tradição americana, a lebre se transformou em coelho da Páscoa.



MEDICINA POPULAR


MEDICINA POPULAR

ARRUDA, Maria Lúcia de Melo. Medicina Popular - a arte de curar dos raizeiros. Cuiabá, UFMT-Imprensa Universitária, 1983. 74 p.
[Texto extraído da obra acima citada (usei muito como apoio em minhas aulas)].

Hipócrates representa o marco inicial da história da medicina. Nasceu na ilha de Cós (Grécia) no ano de 460 a .C.. Antes dele, a prática médica não possuía uma doutrina coerente que a estruturasse, nem uma base científica. (...) Criou um método científico que abarcou a Semiologia, o Prognóstico e a Terapêutica. Tal método é o reflexo de sua experiência baseada no raciocínio, fugindo às hipóteses estabelecidas de antemão para combater o erro e buscar a verdade.

(...) Hipócrates libertou a medicina das influências sacerdotais e filosóficas (...) Antes dele, a prática médica era imbuída de magias e superstições, apoiada quase só no capricho dos deuses. A obra hipocrática representa uma súbita ruptura entre as concepções nebulosas que associavam a doença a forças insondáveis e a medicina baseada na observação e no rigor que atribui as perturbações a causas naturais. 

Os portadores de folclore, suas plantas, receitas e rezas

Cuiabá [pode-se entender também Campo Grande e as cidades de MT e MS], sendo um centro social urbano de médio porte e tendo intenso movimento migratório, conta ainda com pessoas que transmitem, de geração a outra, os ensinamentos que receberam de seus pais e avós, de diversas origens e estados, que favorecem a dinâmica cultural.

Este conhecimento, transmitido oralmente e por imitação, faz parte da vida cotidiana de pessoas simples, sem instrução regulamentar (isso é questionável, é uma postura conservadora) e constitui o folclore...

A medicina popular é largamente empregada nas cidades (desses estados e de outros como Amazonas, Pará, Pernambuco, Paraíba..), nas quais existem diversos raizeiros. Este termo se aplica a quem coleta a planta, seca, prepara os remédios, diagnostica, receita e vende a planta para a decocção ou chá, o emplastro e vende a garrafada, o remédio já preparado por infusão, com composição de plantas. O termo raizeiro também se aplica a quem faz as mesmas funções descritas menos a de coletar a planta, pois já a compra de pessoas que simplesmente as comercializam e que ficam sempre encobertas; nunca se pode conhece-las porque o medo da concorrência entre os raizeiros é grande devido às plantas de difícil acesso e muita procura. Os clientes são de todas as camadas sociais, mas a maioria é de classe baixa e média, que os procura por razões de herança cultural, por razões financeiras e por medo dos médicos.

A herança cultural é explicada de maneira simples: “porque sempre nos tratamos assim”; as razões financeiras estão claramente explicadas: “porque o médico cobra caro e os remédios de farmácia custam uma fortuna”; e o medo dos médicos se deve à baixa compreensão pela falta de estudo associada à dificuldade financeira que os impede de comprar muitos remédios e de voltar ao médico para novas consultas.

A medicina popular é de grande importância nesta região amazônica [e também pantaneira], onde a flora existe em abundância e os médicos em escassez (com exceção das capitais). São as plantas que curam os caboclos, os índios e todos aqueles que com eles se relacionam intensificando a dinâmica cultural. Os raizeiros têm uma tradição cultural a manter e a missão de curar que se tornou seu ofício, sua profissão.

Alguns exemplos de plantas medicinais:
Planta: Mangabeira (Apocynum hancornia, Lineu. Fam. Das Apolináceas)
Indicação: fígado, fechar ferida, tosse (usa-se o leite da planta)

Planta:Caco de balaio (sem identificação)
Indicação: tosse (usa-se a raiz)

Planta: Rabo-de-macaco (Costus spicatus, Swartz. Fam. Das Zikngiberáceas)
Indicação: Rim  (usa-se a rama)

Planta: Vassourinha (Sida rhombifolia, Lineu. Fam.das Malváceas)
Indicação:  Rim – machucadura (usam-se folha, caule e raiz)

Planta: Pé-de-boi ou Pé-de-vaca (s/identificação)
Indicação: Rim, reumatismo (usam-se raiz batida, folha)

Planta: Cancerosa (Maytenus ilicifolia, Martius. Fam. Das Celastráceas
Indicação: moléstia de sangue (usa-se a folha sem a serra)

Planta: Cânfora (Laurus camphora, Lineu. Fam.das Lauráceas)
Indicação: fígado (usa-se a folha)

Planta: Pé-de-anta (s/identificação)
Indicação: Reumatismo, dores, coração (usa-se a folha)
(...)

A benzeção Sr. Antonio aprendeu com suas tias, avós, mãe e diz que o quebrante, o mau-olhado, se pega pela língua, olhou, falou, já pegou e tem que benzer, então reza o Creio em Deus Pai e Santa Catarina. (...)

Os remédios preparados com as plantas medicinais geralmente utilizam as suas partes que contêm o princípio ativo, as folhas, flores, frutos, sementes, caules, cascas ou raízes. A medicina popular tem dado grande contribuição à medicina científica como é o caso da utilização do alho no combate ao enfarte como se vê atualmente e o valor das ervas e sua sabedoria é reconhecido e anunciado em jornais e revistas.

Os raizeiros utilizam as plantas no combate à doença sem terem recebido nenhum ensinamento oficial, o que sabem lhes foi transmitido oralmente por seus pais e avós, que assim também faziam. Por imitação repetem os atos ensinados e assim transmitem para seus filhos, veiculando uma tradição oral da medicina popular que constitui um setor de folclore. A sabedoria dos raizeiros é fruto de sua observação em relação ao natural, sem nenhum conhecimento científico; utilizam a parte da planta que tem o princípio ativo, a droga, e que faz o efeito de acordo com o uso prolongado da mesma. A medicina popular é uma ciência popular de quem, sem estudo, se aprimorou na arte de curar e que, envolta de poderes mágicos, denota sua importância em regiões onde os médicos são raros e o acesso a eles muito difícil.

Em antropologia, falando de Lévi-Strauss, podemos dizer que os raizeiros, a medicina popular, se inscreviam, dentro da dicotomia cru X cozido, no conceito de cru enquanto natural e a ciência médica se inscrevia no conceito de cozido, a ciência elaborada com os remédios sintetizados em laboratório e com seus componentes identificados fazendo parte da cultura erudita.





O FEIO EXISTE?

O FEIO NATURAL TRANSFIGURADO
RIBON, Michel. A arte e a natureza. Campinas: Papirus, 1991, p. 95-7.
Esse texto é um trecho do livro de Ribon para reflexão.


Pode-se falar da fealdade de uma obra de arte? É abusivamente qualificada de feia uma obra - como aquela de Caravaggio cujas Virgens e apóstolos tinham ar de gente do povo - que vai de encontro aos nossos hábitos consagrados pela tradição clássica da beleza ideal. O julgamento de feio só é legítimo quando consideramos que o artista não conseguiu dar existência plena à obra que projetara; tal como o fracasso, o feio, na arte, é a forma abortada de um projeto que não chegou a fazer nascer um mundo.


Ambígua, a atitude do homem em face da natureza é muitas vezes, desde a pré-história, um misto de atração e repulsa: a questão do feio natural não pode ser aqui esquecida.

Ao contrário da maioria dos valores negativos - o erro, o fracasso, o pecado, a injustiça, a doença -, o feio e sua condição foram com freqüência mantidos, assim como a velhice e a morte, numa zona de obscuridade. “O feio, dizia Plotino, é estranho à alma”: relegado ao domínio do “Totalmente Outro” ou do “Imundo”, como se não pudesse ser corrigido, ele amedronta, repele, é um contramodelo; as deformidades de um corpo e a amedrontadora selvageria de uma paisagem testemunhariam o monstruoso impudor da natureza. Se a experiência do feio é acompanhada de ressentimento e ódio contra a deformidade prolífica, se se alimenta de pulsões sádicas, é que o feio é sentido como a ameaça de uma matéria rebelde e uma contaminação; ameaça à qual o sujeito é tentado a responder com uma contra-agressão, pela morte. Mas a negação da arte possui essa maldade?

O antinaturalismo do século XIX esforça-se para dar ao feio natural uma condição não desprovida de ambiguidade: a denúncia do feio tem como avesso, sobretudo quando se trata a Mulher, uma espécie de celebração sacral. “A mulher é natural, ou seja, abominável”: assim Baudelaire coloca a tripla identidade da natureza, da mulher e do feio; a fobia da matéria e a fobia da mulher reúnem-se no medo da mácula e do pastoso “em que a Forma se distancia, apaga-se e se dissolve”; Degas passa uma hora a observar mulheres no banho e conclui que “em geral, a mulher é feia”. 

Arauto do dandismo, O . Wilde, que confessa amar entre as flores apenas aquelas que lhe parecem artificiais, escreveu que “a vida é o inimigo e a subversão da arte: ser natural é ser anti-artístico”. Mesmo a saúde, por sua plenitude de vida, é suspeita de trivialidade em Th.Mann, e o herói d’A montanha mágica refugia-se no conforto da doença que a proteção de um sanatório lhe oferece. 

Descritos por Sartre n’A náusea, o mofo, o inchaço e a obscenidade das coisas, de repente descolados de seus nomes, perdem qualquer forma determinada e resistem à nossa influência, do fundo de sua gratuidade. Mas, nomeando o Inominável, para melhor denunciá-lo, o escritor, fazendo-o assim entrar em seu mundo, por isso não reabilita o feio? 


O livro é bem interessante e vale a leitura total da obra.
FOLCLORE E EDUCAÇÃO
CARVALHO NETO, Paulo de. Folclore e educação. Rio de Janeiro: Forense Universitária: Salamandra, 1981.


Este texto que selecionei é parte integrante do livro Folclore e Educação do Dr. Paulo de Carvalho Neto, respeitado teórico da área. 

“Assim como ao educador lhe corresponde perseguir e aniquilar os fatos folclóricos inaproveitáveis, também lhe corresponde proteger e restaurar os aproveitáveis. Uma vez mais, lembremos que o folclorista não tem, não deve ter e não pode ter esta preocupação. Pois sabe que o Folclore e as instituições mudam e que os critérios de aproveitável e inaproveitável, positivo ou negativo, não são critérios científicos. O folclorista enquanto tal só tem por meta a Ciência do Folclore. E ao lamentar o desaparecimento dos fatos folclóricos só o faz porque esse desaparecimento acarreta maiores dificuldades para o estudo das origens e da interpretação, e não porque os estudantes perdem suas raízes ou porque a nacionalidade se vê prejudicada ou isto ou aquilo.

Quais são os processos de proteção e restauração? As simulações do “Folclore” através das projeções? Projeção é aproveitamento do Folclore, já sabemos disso, mas será também um processo de proteção e restauração? Não, é evidente que não. O aproveitamento não é feito para o proveito do Folclore, mas sim do aproveitador e dos consumidores que tem em vista. O Folclore é como a árvore do látex na Amazônia: extrai-se-lhe o leite para fazer a borracha, mas isto vai matando a planta. De tempos em tempos é necessário deixar a árvore em paz, agora sim, cuida-la, preserva-la. É um grave erro confundir aproveitamento com proteção. 

O mestre que ensina Folclore na escola está enriquecendo o aluno, mas não está fazendo nada em proveito do Folclore propriamente dito. O Folclore é como a água do poço: o educador vai ao poço, tira a água e a traz em recipientes classificados para servir à Educação. Até que um dia o poço seca. Secando o poço morreu esse Folclore. A água engarrafada que o mestre trouxe já não é exatamente aquela água do poço, em quantidade e qualidade. Para começar, trata-se de uma água engarrafada. 

O aluno não foi ao poço para beber. Trata-se de um translado. O Folclore Aproveitado é um translado folclórico, não é Folclore. As sociedades tradicionalistas ou nativistas não preservam o fato tradicional, preservam o tradicionalismo dentro de cada pessoa, o quê diferente. Uma preservação nitidamente classista, porque na maioria dos casos estão formadas sobre a base da divisão de classes sociais, onde pobre e negro não entram. É uma gente dedicada e sincera em seu amor pelo Folclore, mas fechada em círculo. Encarregam-se de difundir o Folclore? Não precisamente. Mas sim de difundir o amor pelo Folclore.

É evidente que este ponto de vista é discutível. [...] O que discuto é a presunção da burguesia em achar que participa do processo da criação folclórica com a mesma categoria que o povo propriamente dito, aqui compreendido como a massa que não vive do capital.

Diria, portanto, que o aproveitamento só concorre para a proteção – quando ocorre – por via de retorno, isto é, indireta. Os meios de comunicação de massa, que em nossos países estão em poder das classes dirigente, só se põem a serviço do povo, verdadeiramente, quando o convida a difundir as suas expressões. E isso é raro. O comum é estes meios de comunicação de massa sejam usados pelas próprias classes dirigentes difundindo projeções. Estará assim “salvando” o Folclore, isto é, protegendo-o e restaurando-o? Ou apenas contribuindo para uma relativa difusão do mesmo?

Entre estes dois pontos de vista – o aproveitamento não é proteção em absoluto [...] Como então proteger e restaurar a verdadeira tradição? Criando programas de ajuda e assistência às comunidades portadoras natas do fato, o que exige critérios de ação, métodos claros, sumo cuidado. Pois é muito fácil, em nome da proteção e restauração, acarretar involuntariamente o desaparecimento pela deformação. E o turismo mal interpretado tende a isso. [...]”

Para a proteção e restauração do folclore, Édison Carneiro propõe e Paulo de Carvalho explicita:

“Restaurar por diversos processos:
1. O chamado – na imprensa; 2. O apoio  - de empresas; 3. O apoio oficial – criando oportunidades de apresentações; 4. A pesquisa – o volume de estudos auxilia na compreensão; 5. Respeito à liberdade – com a legítima expressão do povo.

Como dissemos uma e outra vez, a teoria e prática do aproveitamento ou da perseguição é tarefa muito delicada, porque há vários fatores que pesam na determinação do que é aproveitável ou do que não o é. A Educação é uma matéria discriminadora por excelência, profundamente influenciada pelos conceitos filosóficos da época. Ela muda na medida em que mudam esses conceitos. Ela conduz à libertação do Homem pelo conhecimento das causas, mas ao mesmo tempo à sua escravidão pela obediência às normas. É uma disciplina subserviente, à serviço do Estado em primeiro lugar. Só se liberta das amarras no peito e na raça, através das figuras imortais dos mestres afoitos, considerados idealistas. Ela é um instrumento da ordem estabelecida. Não é sem razão que os professores recebem salários miseráveis, precisamente para mantê-los sob a política do cabresto. [...]

Na classificação dos fatos aproveitáveis e inaproveitáveis, portanto, influem as idéias filosóficas da época e do lugar, a estabelecerem o que é “ético” e o que é “estético”. Idéias filosóficas estas que são manejadas pela classe dominante, tornando-se, portanto, uma expressão classista. [...]”

sábado, 14 de fevereiro de 2015

FOLKCOMUNICAÇÃO

Rebeldia folkcomunicacional

José Marques de Melo
www.marquesdemelo.pro.br

No artigo sobre o ex-voto como veículo jornalístico  (1965) Luiz Beltrão registra o conceito seminal de folkcomunicação, advertindo:  “Não é somente pelos meios ortodoxos que a massa se comunica e que a opinião pública se manifesta. Um dos grandes canais de comunicação coletiva é sem dúvida  folclore”.
O autor sugere que, intervindo no fluxo comunicacional, através da leitura crítica das carências populares (para produzir mensagens altruístas) e da mobilização das classes subalternas (para  produzir feedbackmilitante),  as vanguardas midiáticas lograriam acelerar as mudanças  sociais, neutralizando os conflitos e mediando a cooperação produtiva entre os donos do poder e os agentes coletivos.
A tese beltraniana  configurou-se como resultado das circunstâncias históricas que produziram os cenários da guerra fria, tornando obsoletas as categorias de análise correntes, uma vez que as formações sociais dos países periféricos foram sensivelmente  afetadas pelas migrações nacionais (campo-cidade) e internacionais (miseráveis-opulentos).
Evidências germinadas a partir dos anos 1980 determinaram a atualização do panorama folkcomunicacional, face ao desafio da nossa integração  ao bloco acadêmico emergente no espaço  posteriormente vislumbrado pela geopolítica da conexão BRICS (Brazil, Russia, India, China, South Africa).
A adequação conjuntural em curso  permite  redefinir a Folkcomunicação como  “comunicação dos marginalizados” (1980),  enunciando a superação do complexo do “vira-lata”, atitude que imobilizou academicamente a geração beltraniana,  temerosa de desvendar os “catimbós” epistemológicos sugeridos por cientistas considerados “radicais”. Somente intelectuais destemidos como Edison Carneiro ousaram compreender a “dinâmica do folclore” expostos aos raios causticante da “luta de classes”,  implícitos no guarda-sol gramsciano.
Aliás, o patrono da folkcomunicação estava calejado pela audácia de escrever um livro de reportagens simpático à China de Mao-Tse-tung publicado em 1959,  amargando dissabores que o  acompanhariam até o fim da vida.
Foi exatamente nessa conjuntura de radicalização política que Luiz Beltrão atualizou o conceito da disciplina, assim  enunciado: Folkcomunicação é o processo de difusão simbólica dos conteúdos gerados pelos contingentes marginalizados da sociedade: grupos rurais, urbanos e culturais – bem como a eles referidos.
Para celebrar os 50 anos da Folkcomunicação formou-se o coletivo  Rebeldia – Rede Beltraniana de Estudos Interculturais Avançados – determinado a  fazer uma análise do contexto que desvenda a natureza desses fenômenos  no tempo e no espaço.
Os pesquisadores  vão criar o  Observatório Folkcomunicacional Brasileiro para estudar o conteúdo  veiculado pela sociedade  através da internet:  temas de folclore/cultura popular, inclusive  o registro informativo sobre as camadas populares, marginalidade cultural, inclusão social, durante o ano que o país festeja o cinqüentenário dessa disciplina das ciências da comunicação. 

(Revista IMPRENSA. N. 306. P.76 / Novembro.  2014)